Quem convive com cães de raças de focinho achatado, como Pugs, Bulldogs, Shih-tzus, American Bullies e Boston Terriers, sabe o quanto eles são cativantes. Esses animais conquistam rapidamente seus tutores com a expressão doce, o temperamento amigável e o companheirismo. Não é por acaso que a popularidade dessas raças cresceu muito nas últimas décadas em todo o mundo. No entanto, junto com o aumento da procura e da criação desses cães, cresceu também a preocupação com a saúde deles. O que muitos tutores e até criadores ainda consideram um traço inofensivo da raça, como o ronco alto ou a respiração barulhenta, na verdade é sinal de um problema sério: a síndrome obstrutiva das vias aéreas dos braquicefálicos, conhecida pela sigla BOAS.
A BOAS é uma doença crônica e progressiva que afeta cães braquicefálicos justamente por causa da conformação exageradamente curta de seus focinhos. Com o encurtamento do crânio, os tecidos da boca, do nariz e da garganta não diminuem na mesma proporção, resultando em um verdadeiro excesso de tecido em pouco espaço. Isso causa uma obstrução parcial das vias respiratórias, dificultando a entrada e saída de ar. Alterações como narinas extremamente estreitas, palato mole alongado e espesso, língua grande em relação ao espaço disponível e, em algumas raças, traqueia mais fina do que o normal, compõem esse quadro. O resultado é que o animal precisa se esforçar muito mais para respirar, e esse esforço constante gera inflamações, desgaste e até colapso das estruturas da laringe com o passar do tempo.
Muitos sinais da doença são visíveis no dia a dia. O tutor nota que o cão ronca, faz barulho ao respirar mesmo acordado, apresenta cansaço fácil durante caminhadas curtas e costuma ter episódios de engasgos, vômitos ou regurgitação. Em casos mais graves, o animal pode ter dificuldade para dormir, buscar posições estranhas como sentar para conseguir respirar melhor, ou ainda sofrer desmaios em dias mais quentes ou após esforços moderados. Infelizmente, por estarem tão acostumados com esses sintomas, muitos donos acreditam que esse desconforto é simplesmente uma característica da raça, quando, na realidade, é um sinal claro de sofrimento respiratório.
Mais recentemente, diversos estudos mostraram que a BOAS não deve ser encarada apenas como um problema de respiração. Hoje se sabe que ela é uma síndrome sistêmica, capaz de comprometer também outros órgãos. Muitos cães braquicefálicos apresentam distúrbios gastrointestinais, como refluxo, gastrite crônica e hérnia de hiato, que se manifestam por vômitos frequentes e dificuldade para engolir. Há também relatos de otite média com acúmulo de líquido no ouvido, que pode gerar dor, coceira e alterações no equilíbrio. Outro ponto importante é que esses cães sofrem com distúrbios do sono semelhantes à apneia em humanos, caracterizados por pausas respiratórias, sonolência e cansaço durante o dia. Além disso, há evidências de que a síndrome pode levar à hipertensão arterial, alterações no fígado e até predisposição a problemas de coagulação. Isso reforça a ideia de que BOAS não é apenas uma questão estética ou um detalhe do ronco, mas sim uma doença com repercussões sérias para o organismo.
O tratamento de escolha é a cirurgia corretiva. O procedimento normalmente envolve a abertura das narinas e a redução do excesso de tecido do palato mole, permitindo que o ar passe com menos dificuldade. A idade em que o cão é operado influencia muito no resultado. O ideal é que a intervenção ocorra antes dos dois anos de idade, quando ainda não houve tempo de desenvolver lesões secundárias graves. Em casos de estreitamento acentuado das narinas, alguns especialistas recomendam avaliar a cirurgia já entre quatro e seis meses de idade, para que o filhote cresça respirando melhor. Embora cães adultos também possam ser operados, os resultados geralmente são melhores em animais jovens, enquanto a cirurgia tardia traz mais riscos e benefícios mais limitados.
Nos últimos anos, a tecnologia trouxe novidades importantes. O uso do bisturi harmônico, por exemplo, representa um avanço no tratamento de cães com BOAS. Essa técnica utiliza vibrações ultrassônicas para cortar e coagular ao mesmo tempo, o que reduz sangramentos durante a cirurgia, diminui o tempo do procedimento e proporciona uma recuperação mais tranquila e rápida para o paciente. Estudos mostram que a cirurgia com bisturi harmônico apresenta resultados equivalentes ou até superiores às técnicas tradicionais, especialmente no que se refere ao conforto no pós-operatório e ao menor risco de complicações imediatas. Para tutores e criadores, isso significa mais segurança e bem-estar para os animais.
É importante frisar que, mesmo após a cirurgia, a síndrome não está totalmente resolvida. O cão precisa de cuidados ao longo de toda a vida. Manter o peso adequado é fundamental, pois a obesidade agrava os sintomas. Deve-se evitar exercícios intensos e exposição ao calor, preferindo passeios em horários mais frescos. O uso de peitoral no lugar de coleira no pescoço é outra recomendação prática que ajuda a diminuir o desconforto respiratório. Além disso, problemas gastrointestinais associados, como refluxo e gastrite, muitas vezes precisam ser controlados com acompanhamento veterinário e, em alguns casos, medicamentos.
Para criadores, o desafio é ainda maior. A seleção genética que valorizou o focinho cada vez mais curto trouxe sérios prejuízos ao bem-estar dos cães. Assim, o criador consciente precisa assumir a responsabilidade de não reproduzir animais gravemente afetados ou que já necessitaram de cirurgia corretiva. A seleção deve favorecer cães com narinas mais abertas, focinho um pouco mais longo e boa tolerância ao exercício, características que podem ajudar a reduzir o impacto da doença nas futuras gerações. Além disso, é essencial orientar os novos tutores sobre os cuidados necessários e esclarecer que o ronco não é uma característica charmosa, mas sim um sinal de alerta.
Em alguns países, como Holanda e Noruega, já existem medidas legais restringindo a reprodução de cães braquicefálicos com alterações anatômicas muito severas. Isso demonstra que a discussão sobre BOAS vai além da medicina veterinária e entra no campo ético. Afinal, selecionar cães por estética sem considerar seu bem-estar é algo que precisa ser repensado com urgência.
A síndrome obstrutiva das vias aéreas em braquicefálicos é um problema complexo, que compromete a respiração, o sono, a digestão e a saúde circulatória. Reconhecer os sinais precocemente, intervir na idade adequada, investir em técnicas cirúrgicas modernas e manter cuidados ao longo da vida são medidas essenciais para que esses cães tenham uma vida mais longa e confortável. Para criadores, a responsabilidade vai ainda mais longe, pois são eles que determinam como será a saúde das próximas gerações. O compromisso deve ser com a criação consciente, na qual a saúde e o bem-estar estejam acima da aparência.
No fim das contas, o ronco de um Bulldog ou de um Pug não pode ser encarado como um detalhe engraçado, mas sim como um pedido de socorro. Com informação, responsabilidade e cuidados adequados, é possível oferecer a esses cães a vida plena que merecem, unindo a paixão pelas raças braquicefálicas com a garantia de saúde e qualidade de vida.
Alessandra Ventura
Graduação em Veterinária pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2011), mestrado (2015) e doutorado (2019) em Ciências Veterinária na área de cirurgia e anestesiologia de pequenos animais na UFRGS, com ênfase em ortopedia e traumatologia veterinária. Curso de especialização em Clínica Médica e Cirúrgica de Pequenos Animais pelo Instituto Qualittas (2018). Atualmente professora e coordenadora do curso de pós-graduação de ortopedia e traumatologia de pequenos animais do IBMVET e pós-graduada em Obstetrícia e Pediatria pelo IEP Ranvier.