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PUREZA RACIAL

PUREZA RACIAL

17/02/2020 | Por Beatriz Taques

RAÇA “PURA”

Ao observar as inúmeras discussões envolvendo o conceito de “pureza racial” na cinofilia, percebe-se que, muitas vezes, as raças caninas são tratadas como se constituíssem categorias taxonômicas naturais, equivalentes às utilizadas para classificar espécies e estabelecer relações evolutivas.

Entretanto, raça canina e espécie são conceitos distintos.

Todas as raças de cães domésticos pertencem à mesma espécie, Canis lupus familiaris. As raças não representam espécies biologicamente isoladas, nem constituem necessariamente populações que tenham surgido e permanecido geneticamente segregadas por longos períodos de tempo.

Por esse motivo, a expressão “puro por origem” precisa ser analisada com cautela. Para que uma população pudesse ser considerada geneticamente isolada desde sua origem, seria necessário demonstrar uma história de segregação reprodutiva prolongada e ausência de contribuições genéticas externas. Para a grande maioria das raças caninas modernas, tal condição não pode ser demonstrada.

O que encontramos, na realidade, são populações caninas submetidas a processos sucessivos de seleção artificial, nos quais determinados indivíduos foram escolhidos e reproduzidos de maneira preferencial em razão de características morfológicas, funcionais e comportamentais.

Ao longo das gerações, essa seleção pode produzir uma população altamente uniforme, com características fenotípicas marcantes e relativamente previsíveis. Portanto, em vez de pensar em “pureza de origem” como ausência absoluta de mistura genética, é mais adequado compreender muitas raças modernas como populações geneticamente selecionadas e estabilizadas ao longo das gerações.

O que é uma raça canina?

No contexto cinófilo, uma raça pode ser compreendida como uma população de cães pertencentes à mesma espécie que apresenta um conjunto relativamente estável e reconhecível de características morfológicas, funcionais e comportamentais, transmitidas por hereditariedade e mantidas por seleção ao longo das gerações.

O chamado Padrão Racial estabelece quais características são consideradas típicas daquela população: proporções corporais, estrutura óssea, cabeça, pelagem, movimentação, características funcionais e, quando aplicável, aspectos comportamentais.

Assim, o conceito de raça está diretamente relacionado a três elementos fundamentais:

  1. Hereditariedade: as características devem apresentar transmissão genética;
  2. Seleção: determinados fenótipos são preferencialmente utilizados na reprodução;
  3. Estabilização: após sucessivas gerações, determinadas características tornam-se suficientemente previsíveis para caracterizar aquela população.

Nesse contexto, uma raça não precisa ter surgido de uma população “pura” desde a sua origem. Ela pode ser o resultado de cruzamentos entre diferentes populações, seguidos de seleção e estabilização genética.

É justamente esse processo que está por trás da formação de inúmeras raças caninas reconhecidas atualmente.

FORMAÇÃO DE UMA RAÇA: CRUZAMENTO, SELEÇÃO E ESTABILIZAÇÃO

Para compreender melhor a diferença entre “pureza de origem” e “pureza racial”, podemos utilizar como exemplo a formação histórica de cães do grupo Bull e Terrier.

Em determinado momento histórico, existiam populações de cães do tipo Terrier e populações de cães do tipo Bulldog. Esses cães apresentavam características funcionais distintas.

Os Terriers eram selecionados principalmente por atributos como agilidade, resistência e capacidade de trabalho. Os Bulldogs, por sua vez, apresentavam maior potência física, estrutura corporal robusta e características funcionais próprias de sua utilização histórica.

A partir do cruzamento dessas populações, selecionadores passaram a buscar uma combinação específica de características:

agilidade e tenacidade dos Terriers + força e estrutura corporal dos Bulldogs.

Não se tratava simplesmente de “misturar duas raças” para produzir cães sem identidade. O processo envolvia seleção direcionada.

Os indivíduos que melhor apresentavam as características desejadas eram selecionados para reprodução. Seus descendentes eram novamente avaliados e aqueles que melhor correspondiam ao objetivo funcional eram utilizados nas gerações seguintes.

Com a continuidade desse processo, uma população inicialmente heterogênea pode adquirir características cada vez mais uniformes.

Esse é um princípio fundamental da formação de muitas raças:

cruzamento → seleção → reprodução direcionada → estabilização de características → definição de um tipo racial.

Portanto, o fato de uma população ter origem em cruzamentos não impede que, posteriormente, ela se torne uma raça geneticamente e fenotipicamente bastante consistente.

DO TIPO FUNCIONAL AO PADRÃO RACIAL

O desenvolvimento de diferentes populações caninas também demonstra que o objetivo da seleção pode mudar ao longo da história.

Enquanto determinadas populações foram originalmente selecionadas principalmente por sua funcionalidade, posteriormente outras foram direcionadas para características morfológicas e comportamentais específicas.

No caso dos cães do grupo Bull e Terrier, a seleção histórica inicialmente esteve fortemente relacionada à funcionalidade.

Com as mudanças sociais e legais que ocorreram posteriormente, o propósito da criação também se modificou. A seleção passou progressivamente a valorizar características como conformação, estrutura corporal, movimentação e temperamento, contribuindo para a diferenciação de novas populações e, posteriormente, de raças distintas.

O importante aqui não é afirmar que uma raça simplesmente “se transformou” em outra, mas compreender que populações caninas podem compartilhar ancestrais, apresentar sobreposição genética e, ainda assim, tornar-se distintas por meio de diferentes processos de seleção.

Esse fenômeno é comum na cinofilia.

O CASO DO AMERICAN BULLY

O próprio desenvolvimento do American Bully é um exemplo particularmente interessante para discutir o conceito de formação racial.

A população que deu origem ao American Bully foi construída a partir de cães do grupo Pit Bull/AmStaff e de outras influências selecionadas pelos criadores, buscando características específicas de conformação corporal, estrutura, temperamento e aptidão para companhia.

O resultado não foi simplesmente uma reprodução dos cães que lhe deram origem.

Houve um processo de seleção fenotípica e genealógica, no qual determinadas características foram valorizadas geração após geração até que se estabelecesse um tipo suficientemente reconhecível para receber uma identidade própria.

Por isso, a existência de ancestrais provenientes de diferentes populações não impede que o American Bully seja posteriormente tratado como uma raça dentro de determinado sistema de registro.

E esse ponto é fundamental:

a origem genética de uma raça e a definição genealógica de pertencimento a essa raça são conceitos diferentes.

Uma raça pode ter origem histórica em diferentes populações e, depois de estabelecida, possuir um sistema genealógico próprio.

QUANDO O TIPO SE AFASTA DO PADRÃO

O processo também pode ocorrer no sentido contrário.

Uma raça estabelecida pode sofrer modificações progressivas em seu fenótipo quando determinados criadores passam a selecionar características que se afastam significativamente do padrão originalmente estabelecido.

Quando essa seleção é repetida por várias gerações, determinadas características podem tornar-se predominantes em uma população.

Se, posteriormente, essa população passa a apresentar:

  • morfologia consistentemente diferenciada;
  • objetivos de seleção próprios;
  • características fenotípicas relativamente estáveis;
  • criadores direcionados para aquele novo tipo;
  • reprodução entre indivíduos que apresentam o novo fenótipo;
  • e um padrão racial próprio;

surge a possibilidade de se estabelecer uma nova população racialmente definida.

Foi nesse contexto que surgiu o chamado Exotic Bully.

O Exotic representa uma população selecionada para características morfológicas distintas das encontradas no American Bully tradicional, apresentando maior influência de características do grupo Bulldog e menor expressão das características Terrier tradicionalmente associadas ao American Bully.

O que existe é um processo de introdução genética, seleção, reprodução direcionada e posterior estabilização de características.

Essa distinção é fundamental.

“MISTURA” NÃO É SINÔNIMO DE AUSÊNCIA DE RAÇA

Existe uma contradição frequente no debate sobre pureza racial.

Quando uma nova raça é formada, seus primeiros indivíduos necessariamente possuem ancestrais pertencentes a outras populações.

Entretanto, depois de várias gerações de seleção e estabilização, os descendentes podem constituir uma população com características próprias e previsíveis.

Portanto, dizer que uma raça possui ancestrais provenientes de outras raças não significa que todos os seus descendentes devam ser considerados mestiços indefinidamente.

O que determina o pertencimento racial, dentro de um sistema genealógico, é a definição do padrão e das regras de registro adotadas pela entidade que reconhece e regulamenta aquela população.

PUREZA RACIAL POR ORIGEM × PUREZA RACIAL POR CRUZAMENTO

É justamente nesse ponto que a IBC estabelece uma distinção importante.

Não utilizamos o conceito de “puro por origem” pois não podemos afirmar que determinada raça jamais recebeu contribuição genética de outras populações.

Utilizamos o conceito de “Puro por Cruzamento” para estabelecer um critério genealógico de formação.

Esses percentuais representam proporções genealógicas esperadas, e não significam que seja possível determinar o genoma individual de um cão simplesmente pela fórmula matemática.

Por isso, dentro da metodologia da IBC, o termo “Puro por Cruzamento” é um conceito genealógico e regulamentar, utilizado para indicar que determinada população atingiu a geração estabelecida para reconhecimento de pureza racial dentro daquele sistema.

Não se trata de afirmar que o animal é geneticamente “100% puro” ou que não possui qualquer ancestralidade proveniente das populações utilizadas na formação da raça.

O PAPEL DO PEDIGREE

O pedigree também precisa ser compreendido dentro desse contexto.

O pedigree é um registro genealógico, que documenta a ascendência registrada do animal e sua classificação dentro de determinado sistema de registro.

Assim, quando afirmamos que determinado cão é “puro” dentro de uma raça, estamos falando de seu status genealógico e regulamentar, definido pelas regras da entidade responsável pelo registro daquela raça.

Uma raça é, portanto, uma construção simultaneamente biológica, histórica, genética e cinófila.

A genética explica a origem e a transmissão das características.

A seleção artificial explica sua concentração e estabilização.

O padrão racial descreve o fenótipo desejado.

E o sistema genealógico estabelece os critérios formais para reconhecer os indivíduos pertencentes àquela população.

O VERDADEIRO PAPEL DO CRIADOR

Por essa razão, considerar todo cruzamento entre raças como um “atentado à cinofilia”, o problema não está simplesmente na utilização de indivíduos de diferentes populações.

A questão central é como essa seleção é conduzida.

Um programa responsável de formação ou aprimoramento de uma população deve considerar:

  • saúde genética;
  • diversidade genética;
  • características morfológicas;
  • funcionalidade;
  • temperamento;
  • doenças hereditárias;
  • capacidade reprodutiva;
  • longevidade;
  • bem-estar;
  • e estabilidade das características desejadas.

O objetivo deve ser construir uma população geneticamente acompanhada, fenotipicamente previsível e funcionalmente saudável, na qual as características desejadas possam ser transmitidas de maneira consistente às gerações seguintes.


CONCLUSÃO

A discussão sobre “pureza racial” precisa, portanto, abandonar a ideia de que uma raça canina é uma entidade biológica que surgiu necessariamente sem qualquer mistura genética.

As raças modernas são, em grande parte, resultado de seleção artificial, cruzamentos históricos, isolamento reprodutivo relativo e estabilização de características ao longo das gerações.

O fato de uma raça ter sido formada a partir de outras populações não diminui necessariamente sua identidade racial.

Da mesma maneira, reconhecer uma raça não significa afirmar que ela surgiu geneticamente isolada.

A verdadeira questão é compreender em que momento uma população deixa de ser apenas um conjunto de cruzamentos e passa a constituir uma população racialmente definida, com características próprias, seleção direcionada, padrão estabelecido e genealogia controlada.

É nesse ponto que a cinofilia deixa de discutir simplesmente “mistura” e passa a discutir formação racial.

E é também por essa razão que a IBC utiliza o conceito de “Puro por Cruzamento”, distinguindo-o deliberadamente da ideia de “Puro por Origem”.

Uma raça não é definida pela ausência absoluta de ancestralidade externa.

Uma raça é definida pela identidade que foi construída, selecionada, estabilizada e reconhecida ao longo das gerações.


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